← Voltar ao blogQuem é o vilão na lesão: a execução ou a carga?

Quem é o vilão na lesão: a execução ou a carga?

"Machucou porque executou errado" e/ou "machucou porque pegou peso demais" são duas explicações que todo mundo já ouviu na academia.

A Dica da Semana adiantou a resposta curta: a ciência não permite escolher um vencedor universal. Aqui, vemos por quê, e o que isso muda na prática.

O que se sabe sobre lesões nos esportes de força

Uma revisão sistemática atualizada em 2024 reuniu 17 estudos sobre levantamento olímpico e powerlifting. No levantamento olímpico, a incidência foi de 2,4 a 3,3 lesões a cada 1.000 horas de treino, com joelho, lombar, ombro e mãos entre os locais mais atingidos. No powerlifting, foi de 1,0 a 4,4 lesões a cada 1.000 horas, sobretudo na lombar e pelve, no ombro e no cotovelo [1]. Esses números são parecidos com os de outros esportes de força sem contato e menores que os dos esportes de contato [2].

O ponto central para a pergunta deste artigo é outro: quase nada se sabe, com segurança, sobre os fatores de risco. A revisão anterior encontrou apenas um estudo que analisou possíveis fatores de risco [2], e a atualização reforçou as conclusões anteriores, com estudos muito diferentes entre si e difíceis de comparar [1]. Com essa base, frases como "essa técnica sempre machuca" ou "o peso excessivo é o principal culpado" vão além do que a evidência mostra.

O caso da coluna curvada

Poucas regras são tão repetidas quanto "nunca curve a coluna ao levantar peso". Uma revisão sistemática com meta-análise investigou se mais flexão da lombar durante o levantamento de objetos estava ligada à dor lombar. A maioria dos estudos (9 de 11) não encontrou diferença entre pessoas com e sem dor, e a conclusão foi que há evidência de baixa qualidade de que mais flexão lombar, isoladamente, não é fator de risco para o início ou a persistência da dor [3].

Dois cuidados na leitura. Esses estudos avaliaram levantamento de objetos, e não especificamente cargas máximas na academia. E "não ser fator de risco isolado" não significa que qualquer execução serve em qualquer situação: a técnica muda como as forças se distribuem no corpo, e isso importa para o objetivo do exercício e para o que cada pessoa tolera.

Carga é mais do que o peso na barra

Quando se fala em carga, muita gente pensa só nos quilos. O consenso do Comitê Olímpico Internacional usa uma definição bem mais ampla, que inclui mudanças rápidas no treino, calendário apertado, carga psicológica e viagens, e conclui que a má gestão da carga está entre os principais fatores de risco de lesão [4]. Na musculação, isso se traduz em séries, repetições, frequência, proximidade da falha e, principalmente, na velocidade com que tudo isso aumenta.

O risco, então, não está num número absoluto, mas na relação entre a carga e a capacidade da pessoa naquele momento, que depende de histórico, fadiga e recuperação, variáveis que o consenso recomenda monitorar [4]. O mesmo agachamento pode ser adequado para uma pessoa e excessivo para outra, ou para a mesma pessoa numa semana ruim.

Dor no treino nem sempre é lesão

A mesma revisão de 2024 mostrou que, no powerlifting, a incidência de lesões foi baixa, mas a prevalência foi alta quando se considerou lesão qualquer condição dolorosa que atrapalhasse o treino [1]. Também chamou atenção para um problema pouco discutido: disfunções do assoalho pélvico, como perda de urina, foram relatadas por cerca de 50% das mulheres nesses esportes, contra 9,3% dos homens [1]. Vale conversar sobre isso com um profissional, em vez de normalizar.

Na prática

  • Ajustar a execução ao exercício e ao objetivo: a técnica muda a distribuição das forças, mas a flexão lombar, isoladamente, não se mostrou fator de risco para dor lombar [3].
  • Gerir a carga como um todo, com volume, frequência, progressão e recuperação, e não só os quilos [4].
  • Evitar aumentos rápidos de carga, apontados pelo consenso do Comitê Olímpico Internacional como fator de risco de lesão [4].
  • Levar a sério a dor que persiste, piora ou limita o treino: quando os estudos contam esse tipo de dor como lesão, a prevalência no powerlifting é alta [1].

Como resumiu a Dica, a pergunta mais útil é: esse exercício, nessa dose, faz sentido para você hoje?

Quando procurar avaliação

Vale procurar uma avaliação se a dor aparece sempre no mesmo exercício, se ela continua no dia seguinte ou muda o seu jeito de treinar, ou se você não sabe como ajustar técnica e carga ao seu caso. Na Moving, a avaliação é individual e acontece dentro da Bodytech do Setor Marista, em Goiânia.

Referências

  1. Tung MJ-Y, Lantz GA, Lopes AD, Berglund L. Injuries in weightlifting and powerlifting: an updated systematic review. BMJ Open Sport Exerc Med. 2024;10(4):e001884. https://doi.org/10.1136/bmjsem-2023-001884
  2. Aasa U, Svartholm I, Andersson F, Berglund L. Injuries among weightlifters and powerlifters: a systematic review. Br J Sports Med. 2017;51(4):211-219. https://doi.org/10.1136/bjsports-2016-096037
  3. Saraceni N, Kent P, Ng L, et al. To flex or not to flex? Is there a relationship between lumbar spine flexion during lifting and low back pain? A systematic review with meta-analysis. J Orthop Sports Phys Ther. 2020;50(3):121-130. https://doi.org/10.2519/jospt.2020.9218
  4. Soligard T, Schwellnus M, Alonso JM, et al. How much is too much? (Part 1) International Olympic Committee consensus statement on load in sport and risk of injury. Br J Sports Med. 2016;50(17):1030-1041. https://doi.org/10.1136/bjsports-2016-096581

Revisão técnica: Thiago Vilela Lemos, PhD, fisioterapeuta e profissional de Educação Física. CREFITO 19-72036.

Conteúdo informativo; não substitui avaliação individual.

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