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Voltar a treinar depois de uma pausa: o que acontece no corpo e como retomar sem exagerar

Ficou algumas semanas sem treinar e a vontade é compensar tudo na primeira sessão? É compreensível, e é justamente aí que está o risco. A Dica da Semana resumiu a ideia central: a volta merece planejamento. Aqui, aprofundamos o que acontece no corpo durante a pausa, o que as diretrizes recomendam e como adaptar isso para quem treina por saúde ou por desempenho amador.

O que se perde durante a pausa

A ciência chama de destreinamento a perda parcial ou total das adaptações conquistadas com o treino quando o estímulo deixa de ser suficiente [1]. A velocidade dessa perda depende do tempo parado e do que está sendo medido.

Em pausas curtas, de menos de quatro semanas, atletas muito treinados apresentam queda rápida do consumo máximo de oxigênio (o VO2máx, um marcador do condicionamento aeróbico) e do volume de sangue. Em quem começou a treinar há pouco, essas mudanças são mais moderadas, e a perda de força nesse período costuma ser limitada [1].

Em pausas de mais de quatro semanas, o VO2máx cai de forma marcante, mas tende a continuar acima do de pessoas não treinadas; ganhos conquistados recentemente, por outro lado, podem se perder por completo. A força diminui mais devagar e costuma permanecer acima do nível inicial por longos períodos [2].

Uma meta-análise com 103 estudos confirmou que parar o treino de força reduz todos os componentes da força muscular, com uma relação de dose e resposta: quanto mais longa a pausa, maior a perda. O efeito foi maior em pessoas com mais de 65 anos e, para força máxima e potência, em pessoas inativas, em comparação com praticantes recreativos [3].

Na prática: o condicionamento aeróbico costuma cair antes da força, quanto maior a pausa maior a perda e, mesmo assim, raramente se volta à estaca zero.

E a tal "memória muscular"?

Parte do que você aprendeu fica. Num estudo com homens e mulheres que treinaram uma perna por 10 semanas e depois ficaram 20 semanas sem treinar, a espessura do músculo voltou aos valores iniciais, mas a força continuou acima do ponto de partida, o que os autores atribuem principalmente ao aprendizado motor [4]. Quando os participantes voltaram a treinar, porém, a perna previamente treinada não respondeu melhor do que a outra [4].

Ou seja: a coordenação e a técnica aprendidas tendem a durar, mas a ideia de uma "memória" das células musculares que acelera a recuperação ainda não está bem demonstrada em humanos.

O que as diretrizes recomendam

As diretrizes da CSCCa e da NSCA consideram período de transição qualquer volta após duas semanas ou mais sem treinar [5]. Para atletas que retornam, propõem reduzir o volume de condicionamento em pelo menos 50% na primeira semana e em 30% na segunda, em relação ao maior volume registrado. Para atletas novos ou com novo preparador, a redução se estende por quatro semanas, na sequência 50%, 30%, 20% e 10%: é a chamada regra 50/30/20/10 [5]. O documento também pede intervalos longos entre os esforços nas primeiras semanas e limita o treino de força a, no máximo, três sessões na primeira semana e quatro na segunda [5].

Dois pontos importam para ler esses números com cuidado. As regras foram feitas para atletas universitários, com volumes de treino muito altos e registro detalhado do que cada um fazia. E os próprios autores reconhecem que pausas curtas, de uma a quatro semanas, muitas vezes não causam grande perda de condicionamento; mesmo assim, concluem que o conjunto das evidências favorece pelo menos um período breve com carga menor [5]. Por isso, as porcentagens servem como referência de prudência, e não como receita para todo mundo.

Como adaptar a volta à sua realidade

Não há estudos que testem regras de retorno específicas para quem treina por saúde ou por desempenho amador. O que existe são as diretrizes para atletas e os estudos de destreinamento, e deles saem os pontos mais bem apoiados:

  • Ajustar a redução ao tempo parado: a perda aumenta com a duração da pausa e é maior acima dos 65 anos e em pessoas inativas [3]; ganhos recentes se perdem mais facilmente do que adaptações de longo prazo [2].
  • Reduzir o volume no início: a diretriz propõe cortar pelo menos 50% do volume de condicionamento na primeira semana após duas semanas ou mais sem treinar [5].
  • Limitar a frequência do treino de força: até três sessões na primeira semana e quatro na segunda [5].
  • Descansar mais entre os esforços: pelo menos quatro vezes a duração do esforço na primeira semana e três vezes na segunda [5].
  • Progredir sem saltos bruscos de carga, o ponto central do consenso do Comitê Olímpico Internacional [6].

Se a pausa aconteceu por lesão, cirurgia ou doença, a volta deve ser combinada com a equipe que acompanha você, porque o ponto de partida e os critérios de progressão mudam.

Quando procurar avaliação

Vale procurar uma avaliação se a dor persiste ou piora com o passar das semanas, se você se machuca toda vez que retoma, se a pausa foi por lesão ou cirurgia, ou se simplesmente não sabe por onde recomeçar. Na avaliação, o fisioterapeuta considera o tempo de pausa, o histórico de lesões, o tipo de treino e a sua condição atual para montar uma progressão segura. Na Moving, a avaliação é individual e feita de forma específica para cada caso. Estamos na Bodytech do Setor Marista, em Goiânia.

Referências

  1. Mujika I, Padilla S. Detraining: loss of training-induced physiological and performance adaptations. Part I: short term insufficient training stimulus. Sports Med. 2000;30(2):79-87. https://doi.org/10.2165/00007256-200030020-00002
  2. Mujika I, Padilla S. Detraining: loss of training-induced physiological and performance adaptations. Part II: long term insufficient training stimulus. Sports Med. 2000;30(3):145-154. https://doi.org/10.2165/00007256-200030030-00001
  3. Bosquet L, Berryman N, Dupuy O, et al. Effect of training cessation on muscular performance: a meta-analysis. Scand J Med Sci Sports. 2013;23(3):e140-e149. https://doi.org/10.1111/sms.12047
  4. Psilander N, Eftestøl E, Cumming KT, et al. Effects of training, detraining, and retraining on strength, hypertrophy, and myonuclear number in human skeletal muscle. J Appl Physiol (1985). 2019;126(6):1636-1645. https://doi.org/10.1152/japplphysiol.00917.2018
  5. Caterisano A, Decker D, Snyder B, et al. CSCCa and NSCA joint consensus guidelines for transition periods: safe return to training following inactivity. Strength Cond J. 2019;41(3). https://doi.org/10.1519/SSC.0000000000000477
  6. Soligard T, Schwellnus M, Alonso JM, et al. How much is too much? (Part 1) International Olympic Committee consensus statement on load in sport and risk of injury. Br J Sports Med. 2016;50(17):1030-1041. https://doi.org/10.1136/bjsports-2016-096581

Revisão técnica: Thiago Vilela Lemos, PhD, fisioterapeuta e profissional de Educação Física. CREFITO 19-72036.

Conteúdo informativo; não substitui avaliação individual.

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